
Dia da Caça, 27 de Terra Acorda de 39 SC (Calendário das Planícies)
A cidade amanheceu com um ar diferente, a primavera começou em poucos dias e as árvores começam a apresentar botões e o clima fica mais agradável para as pessoas que ali residem. As casas sobre as copas das enormes árvores começam a abrir portas e janelas anunciando o dia agitado que se seguirá. Mas o verdadeiro motivo que pos as pessoas nas ruas e passarelas neste dia foi a noticia que os Lendários Cavaleiros de Solâmnia estavam chegando à cidade, e com eles dois clérigos de Mishakal, que poucos conheciam a respeito, mas ouviram falar muito bem.
Pela manhã a movimentação nas ruas da vila foi intensa, a correria pelos preparativos somada com a alegria do anúncio do fim da guerra só aumentaram as expectativas do evento à noite. Um palanque de madeira é montado na praça da cidade e o barulho das marteladas podem ser ouvidas ao longe.
Na Hospedaria do Último Lar, o anão do clã Neidar, Abli Martelo DeFerro aguarda a chegada de seu amigo Talis o marceneiro, que se dedicou nos últimos anos à fabricação de arcos e flechas devido à necessidade nos tempos de guerra. Atualmente ele é o morador humano mais antigo vivo em Solace, no auge dos seus 75 anos.
O prato de batatas salgadas chega à mesa de Abli ao mesmo tempo em que seu amigo cruza a porta da hospedaria.
- Bom dia Abli! E bom reencontra você!
- Bom dia – resmunga o anão mastigando uma batata inteira.
- Pronto para as festividades? Sabe que hoje chegarão os Soldados de Solamnia. Precisamos estar arrumados adequadamente para recebê-los!
Um calafrio imediato se abateu no anão, ele começou a revirar sua mente pensando que tipo de trajes deveria usar na ocasião. Afinal iria se encontrar com a ordem de cavaleiros mais importante do mundo humano e deveria causar uma boa impressão em nome de toda a raça anã do continente.
Disfarçando a preocupação ele sorriu e disse – Talis eu preciso me preparar! Nos encontramos na festa então?
Claro! – retrucou o amigo humano.
Rapidamente o Anão se levantou e foi em direção a sua casa.
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Os pássaros cantam na Floresta do Lago de Cristal, avisando que o dia já chegara. O elfo Haldir Wien desperta com o cheiro do chá de folhas de pessegueria que Ellistarel, sua senhoria, preparava todas as manhãs. Esse cheiro sempre o fazia lembrar do Cheiro da Floresta de Qualinesti, e acreditava que ela sempre começava o dia assim para se sentir em casa, mesmo estando muito distante de lá.
Ele se pos de pé e se aproximou da elfa. Ela se encontrava a frente do pequeno fogão a lenha vestindo um manto verde claro de linho élfico repleto de folhas e flores bordadas. Assim como a natureza fazia, a Druida só se importava de mudar de trajes com a mudança das estações. Seus cabelos estavam cuidadosamente trançados e adornados com uma coroa de flores delicadas.
- Haldir, seu chá esta pronto – Ela disse docemente enquanto se virava para ele.
- Bom dia – Respondeu em élfico.
- O que a senhora pretende fazer hoje?
- Farei uma patrulha pela floresta, mantendo os caçadores afastados. O coração de Chislev esta repleto de esperanças com as atuais mudanças do mundo, libertando a paixão entre os animais para gerar os frutos que seguirão o eterno ciclo – disse ela, terminando sua bebida e colocando o copo sobre uma pequena mesa.
– Preciso que me faça um favor hoje Haldir. Vá até a cidade e procure notícias sobre nossa terra natal.
O elfo acena com a cabeça enquanto a druida sai da pequena casa. Ele se senta e cheira mais uma vez o chá.
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A movimentação de Solace continua intensa. O prefeito, um comerciante de cerâmica conhecido como Burgomestre Rufinos Loris, aguarda em seu salão de reuniões a chegada dos gêmeos anões Ufgar e Ufar. A agitação o faz andar de na pequena sala, pensando em tudo que ainda precisa fazer até o por do sol.
A porta da sala se abre e o seu filho anuncia a chegada dos convidados
- Os Representantes Neidar chegaram Burgomestre!
Imediatamente o senhor de Solace se senta em sua mesa e faz um gesto com as mãos para que os anões entrem e se sentem. Ufgar entra vestindo uma roupa simples marrom clara e um sobretudo de couro preto com um chapéu do mesmo tom. Já Ultar veste seu velho peitoral de ferro, já marcado por lanças e espadas das inúmeras batalhas que participou, em suas costas seu inseparável machado anão.
Eles se sentam e saúdam o Burgomestre colocando seus punhos fechados na frente do peito, um comprimento típico entre anões que demonstra respeito.
- Bom dia Mestres Anões! Hoje é um dia corrido para todos nós, mas tenho um assunto que preciso tratar da maior urgência. Como sabem a guerra acabou e é hora de refazermos os laços com nossos compatriotas
Os anões se fitaram. Ufgar e Ultar conversaram em sua língua natal por uns instantes.
Ufgar se vira para o Burgomestre e diz – E quando seria essa viagem?
- Em dois dias. A primavera começou e acredito que seja um ótimo momento para viajarem.
Apesar de não entender a linguagem dos anões, Rufinos percebe uma tensão entre os irmãos e completa – Estou disposto a oferecer 500 peças de ferro aos senhores pelo serviço.
Ufgar coça sua barba cinzenta como de costume e pondera por um instante.
- Eu não poderei ir, mas enviarei meu sobrinho Abli para liderar a viagem. Ensinei tudo que sei para o garoto e creio que ele esta pronto para assumir este tipo de tarefa!
Ultar lança um olhar de surpresa para o irmão, mas concorda imediatamente com ele sem dizer uma palavra.
O burgomestre se levanta e imediatamente os anões fazem o mesmo. Eles se dão as mãos, um comprimento típico de Abanasinia após um acordo selado. Os anões deixam à prefeitura.
O burgomestre se vira para seu filho e diz – Irei visitar a Conselheira Alistra! Se os Solamnianos chegarem ofereça nossas cordialidades!
O jovem acena com a cabeça em sinal de ter entendido.
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De volta a sua casa elevada, Abli encontra-se em seu pequeno quarto. Sua mobília se resume a uma cama e um enorme baú de madeira, ambos talhados como presente de seu amigo humano Talis.
Nesse momento Abli revira o baú em busca de alguma coisa digna de se vestir em uma cerimônia tão importante. Ele pega sua velha armadura de peles, mas a descarta ao ver a enorme marca de queimado nas costas da vestimenta feita em um ataque de flechas incendiárias quando ele ainda defendia a fortaleza de Pax Tharkas. No fundo do baú restam algumas moedas de ferro, sua mochila de viagens, um saco de dormir e uma tira de pano verde que serve de toalha e capa. A única roupa que possui é a que está vestindo neste instante, mas que também não parece impressionar muito. Rapidamente ele pega as moedas de ferro no fundo do baú e sai.
O anão corre em direção a uma mulher que passa carregando uma cesta de flores, indo em direção a praça da cidade, onde o palanque está sendo montado.
- Ei! Onde tem uma loja de roupas? – Grita o anão ofegante do lado da mulher.
Surpresa ela deixa escapar um grito e por sorte não deixa a cesta de flores caírem no chão.
- Preciso comprar roupas novas! Roupas para anões! Onde posso comprar?
A mulher pensa por um instante, tentando botar os pensamentos em ordem após o susto.
– venha comigo, existe uma loja de roupas na praça da cidade. A única loja de roupas da cidade, lá deve ter alguma coisa para anões.
Os dois seguem alguns passos e percebendo que o anão não iria se prontificar em ajudá-la a carregar a pesada cesta, ela suspira – Nossa como está pesado! Se tivesse alguém que pudesse me ajudar...
Imediatamente o anão se oferece para carregar as flores até a praça. Lá a moça aponta onde ficava a loja.
Abli vai até a janela, onde uma luz tremula de velas iluminando o interior do local e a sombra de um homem que se move apressadamente de um local ao outro.
Ele bate na porta e ela imediatamente é aberta.
- Preciso de roupas! Para a festividade de hoje à noite. Tem alguma roupa anã em sua loja?
Com um gesto o alfaiate manda o anão entrar e imediatamente mostra todas as roupas que possui.
- Infelizmente não tenho muitas roupas no momento. Principalmente para as medidas anãs. Mas creio que posso ajustar alguma coisa para você. Suba nesse banquinho e me deixe tirar suas medidas.
O anão lança um olhar desconfiado ao homem, sem saber se era algum tipo de piada por sua estatura ou simplesmente o procedimento normal. Ele olha também para o banco para ter certeza que este poderá suportar seu peso e depois sobe nele e abre seus braços. O alfaiate tira suas medidas.
- Que tipo de tecido deseja senhor?
- Um marrom escuro está ótimo!
- Infelizmente não tenho nada desse tom. Mas tenho esta roupa, que precisará de poucos ajustes para lhe servir – respondeu o alfaiate segurando uma camisa azul clara feita para humanos mais “cheios”. Abli não pareceu gostar muito da cor, mas como era a única opção ele aceitou. Imediatamente o alfaiate começou a cortar e costurar a peça de roupa.
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Ao início da tarde chega em Solace a carruagem com os clérigos escoltada por quatro cavaleiros de Solamnia. Pelas ruas em que passam a agitação se silencia e todos parecem ter olhos apenas para o desfile que se segue. Eles se dirigem para a prefeitura e assim que chegam são recebidos por Leamar, filho do burgomestre.
- Bem vindos a Solace nobres cavaleiros e clérigos de Solamnia. Meu nome é Leamar, filho do Burgomestre de Solace Rufinos Loris. Meu pai teve que se ausentar para tratar de uns assuntos, mas me deixou encarregado de recebê-los. Fiquem a vontade caso queiram se trocar, descansar, comer algo ou tomar um banho! E se precisarem de algo é só me chamar.
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-Alistra! – Grita o prefeito na frente da casa de sua conselheira.
Alguns instantes depois a jovem Alistra abre a porta. Ela veste um longo vestido e um chapéu de aba, seus cabelos negros e encaracolados alcançam sua cintura e sua beleza é apreciada por toda Solace.
- Alistra preciso que me faça um favor, urgente! Com todos os preparativos e tudo mais que anda ocupando minha cabeça, me esqueci de convidar os guias que vivem na cabana as margens do lago. Por favor minha querida, vá a procura deles e convide-os formalmente para essa noite. Seria muito indelicado de nossa parte não o fazer.
Com um aceno de cabeça a jovem concorda com o Burgomestre, e com um sorriso ela o conforta no mesmo instante.
- Não se preocupe Rufinos, irei agora mesmo até a cabana no lago!
A jovem parte em direção a cabana e quando se aproxima observa a figura do elfo na porta da frente assoviando como quem chama por alguém. Alguns instantes depois um falcão pousa em seu braço e os dois parecem conversar em sussurros.
- Bom dia Haldir! – Ela diz, seguido de um sorriso.
O elfo apenas a observa.
- Meu nome é Alistra e eu vim perguntar se você e sua senhoria virão até a cidade hoje. É um dia muito especial para Solace, pois os Cavaleiros de Solamnia estão chegando e com eles dois clérigos de Mishakal que vieram anunciar não só o fim da guerra, mas a volta dos deuses! Você irá?
O Elfo pondera por alguns instantes tentando imaginar porque esta jovem parece tão interessada nele. Por fim, responde que sim.
- Ótimo. Então te espero lá.
A jovem retira um alaúde das costas e começa a tocar e cantar enquanto se distancia.
“Este é o início
de um novo tempo
onde a noite voltou a brilhar
Com estrelas e constelações
Trazendo de volta
os templos e adorações
aos deuses ausentes
que agora voltaram
um novo mundo irá nascer
onde todos poderão viver
um novo mundo você via ver
onde todos poderão viver”
O elfo observa da porta entreaberta da pequena casa enquanto a jovem se distancia cantando a suave canção. Ele volta a “si” quando já não pode mais vê-la ou ouvi-la.
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O sol se põe e as pessoas começam a se dirigir até a praça da cidade com suas cadeiras. Elas se sentam na frente do palanque e uma grande mesa de comida está sendo preparada atrás delas.
Abli usando seu elegante traje azul claro avista seus companheiros anões encostados sobre a copa de uma das enormes árvores da cidade e se aproxima deles.
Ufgar e Ultar explicam o que sabem sobre os cavaleiros de Solamnia para seus pupilos Borin, Bulin e Gorin. Abli se aproxima e Gorin assim que o vê lhe dá um forte abraço anão. Todos o cumprimentam e depois da pequena pausa. Ultar volta a falar sobre os cavaleiros na linguagem anã.
O elfo Haldir chega à praça e percorre o local com os olhos a procura da bela Alistra. Ela se encontra sobre o palanque tocando seu alaúde enquanto as pessoas se ajeitam, esperando o início da cerimônia. Haldir se aproxima do palanque e se mantêm em pé, bem próximo da barda.
Entre as canções a ela pede que todos se acomodem para que ela possa dar início à cerimônia.
Em alguns instantes depois, quando as pessoas começam a fazer silêncio ela anuncia - Meus amigos! Quero convidar o Burgomestre Rufinus para ocupar seu lugar aqui na nossa mesa de honra. Também quero convidar o Líder dos Cavaleiro de Solamnia em Solace, o senhor Clive Ocre e seus cavaleiros Loriamar, Fenetus e Semilus. E também os Clérigos de Mishakal, senhor Ador e Turin.
O Burgomestre, os quatro cavaleiros e os dois clérigos sobem no palanque e se sentam conforme anunciados por Alistra. O povo novamente se agita, aplaudindo e assoviando com grande empolgação.
- E agora vamos ouvir as palavras de boas vindas de nosso senhor Rufinus Loris.
– Quero cumprimentar os Cavaleiros de Solamnia, os clérigos de Mishakal e ao povo de Solace! Caros amigos, a guerra acabou! É o inicio de um tempo de paz para toda a Abanasinia! Os deuses voltaram para nos abençoar e finalmente poderemos viver uma nova era sem guerras e sem mortes! A cidade de Solace é a primeira a receber os Clérigos de Mishakal, e isso demonstra a vontade da própria deusa em nos proteger e abençoar! E por isso este é um dia tão importante para todos nós – disse o burgomestre eloquentemente, seguido de aplausos e cumprimentos dos que ouviam.
Em seguida a Barda convidou o líder dos cavaleiros a falar.
- Nós cavaleiros de Solamnia estamos em Solace para uma missão muito especial. Nós fomos designados para ser a guarda de honra do Tumulo dos Últimos Heróis, o que nos honra enormemente. E a cidade de Solace agora é nosso distrito, por isso se precisarem de nossa ajuda estaremos prontos para ajudar – Disse o Cavaleiro, e no fim de sua fala se sentou.
Encostados no tronco da imensa árvore o silêncio dos anões é quebrado por Abli – O que é um distrito mesmo?
- Ora! Como anão que viveu sua vida toda em uma guerra pode não saber o que é um distrito? – respondeu raivosamente Ultar dando um safanão na cabeça do jovem anão.
- Um distrito são as fronteiras onde uma guarda atua, protege e guarda. Não se lembra
Quando eles voltam a fazer silêncio o clérigo de Mishakal já está começando seu discurso.
- Amigos de Solace. Vim em uma missão de construir um santuário aqui nesta cidade. Preciso de ajuda para esse trabalho. Aqueles que puderem, e de coração desejarem, serão muito bem vindos nessa tarefa. E se alguém precisar ser curado de qualquer enfermidade ou se precisar de conselhos, eu estarei sempre aqui, em nome de Mishakal, pronto para ajudar. E Esse ao meu lado é meu jovem aprendiz Turin. Ele espalhará a notícia por toda Abanasinia para que todos possam conhecer e seguir os ensinamentos dos deuses. Muito obrigado! – disse Ador, seguido de aplausos calorosos da população.
- Senhores, está desfeita a mesa. Vamos começar as festividades. A comida e bebida estão prontas para servi-los. E agora vamos retomar as músicas! – Disse a Barda, que em seguida começou a cantar.
“Se procura um lugar onde
A alegria existe
Um lar onde possa morar
Viver sem medo
Sem nada para atrapalhar
Me de sua mão
Que eu posso lhe mostrar
Me de sua mão
Que eu posso te guiar
Pois existe esse lugar
Sim, existe esse lugar"
A pessoas dançam e comem alegremente. Apesar da mesa de autoridades ter sido desfeita, todos ainda estavam sentados lá na frente apreciando a festa que se seguia.
- Mestre. Eu vou me misturar na multidão e ver se existe alguém que possa me acompanhar em minhas viagens – disse o jovem clérigo.
- Como quiser Turin. Mas me lembre que existe algo que eu quero lhe dar. Não me deixe esquecer! – respondeu Ador.
Entre todos, o elfo foi quem chamou a atenção do jovem clérigo, que foi em sua direção. Em parte pela curiosidade pois nunca havia visto um, mas também por conhecer a reputação dos elfos como guias extraordinários.
- Com licença, eu estou procurando um guia para me acompanhar em minha missão
- Sim – respondeu o elfo sem tirar os olhos da jovem barda que cantava no alto do palanque.
- Vejo que está meio ocupado, onde posso lhe encontrar amanhã para conversarmos melhor?
- Eu moro em uma cabana afastada da vila, as margens do Lago de Cristal – respondeu o elfo sem demonstrar interesse, deixando o jovem clérigo perdido em pesamentos.
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Comida, dança e música. A festa se seguia normalmente. Ultar ao terminar de contar tudo que conhecia sobre os cavaleiros, decide ir até lá se apresentar. E todos os anões o acompanharam.
- Bom dia nobres cavaleiros! Meu nome é Ultar, este é meu irmão Ulfgar e aqueles são Borin, Bulin, Gorin e Abli. Somos defensores de Solace e creio que daqui para frente seus companheiros de batalhas – disse o anão com uma voz firme e completamente confiante.
- Todos mestres guerreiros eu imagino – respondeu respeitosamente o líder dos cavaleiros.
Abli deu um passo a frente como quem desejava dizer algo, Ultar arregalou os olhos surpreso e preocupado com o que o jovem anão poderia dizer, mas não pode impedi-lo.
- Eu sou um grande armeiro senhor! – Disse o jovem anão com orgulho.
- Bem, e o senhor sabia que Solamnia precisa de armeiros nesse momento Abli? Considere convidado pela nação de Solamnia a se juntar a suas fileiras de fabricantes de armas e armaduras. Seus serviços seriam de grande valia! – respondeu de forma gentil o nobre cavaleiro.
Abli estufou o peito por ter causando excelente impressão nos três Cavaleiros.
-Então os senhores partiram de Thorbadin antes que seus portões fossem fechados para o mundo. Foi um ato de muita bravura de todos vocês! E como é mesmo o nome do bravo anão que os liderou para fora de Thorbadin?
Abli parou por um segundo e ficou pensando, tentando se lembrar o nome de seu líder, mas mesmo estando na ponta de sua língua ele não conseguia pronunciá-lo, criando um instante de constrangimento que só terminou quando Ultar impaciente deu um forte tapa na nuca de Abli dizendo – Como pode não se lembrar! Nós anões somos famosos por nossa memória! Abli se esforçou, mas o nervosismo o atrapalhou mais ainda.
Ultar já estava vermelho de raiva e se atracou ao jovem anão. Os dois rolaram palanque abaixo e caíram no chão. Todos agora olhavam para a confusão que se seguia. Entre palavrões na língua anã e chutes os dois rolavam de um lado ao outro até que os cavaleiros decidiram separá-los. Clive Ocre segurou Abli enquanto Loriamar, Fenetus e Semilus tentavam conter Ultar em sua ira.
O líder dos cavaleiros, distraindo o jovem anão, conseguiu afastá-lo da multidão e convencê-lo a voltar para sua casa. Percebendo a dificuldade
Depois do desagradável incidente a festa continuou até a madrugada.
Após tocar a ultima música, já guardando seu instrumento, o elfo Haldir se aproxima de Alistra.
- Bom show!
- Obrigada!
- Será que eu posso te acompanhar até sua casa?
- Claro! – responde a barda ao terminar de guardar seu instrumento.
Eles levantam e caminham até a casa de Alistra.
- Alistra, você sabe alguma coisa sobre Qualinesti?
A jovem pensou por alguns instantes e disse – Sei que os elfos não estão mais lá e que agora a fronteira norte esta sendo ocupada por um bando de mercenários humanos.
Os dois chegaram na árvore onde mora Alistra, ela parou na frente da porta e fez um comprimento de boa noite. Segundos depois o elfo partiu em direção a sua casa.
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Em Solace as primeiras horas da manhã tendem a permanecer escuras, tanto pela cidade ficar em um vale cercado de montanhas, quanto pelas enormes árvores em que ela fica situada.
- Abli! Acorde! Tenho uma tarefa para você! – Disse Ufgar batendo na porta do quarto de seu aprendiz.
Abli se levantou rapidamente e foi ao encontro de seu mestre, que preparava um forte café da manhã.
- Abli, o burgomestre nos contratou para uma missão. Ele precisa levar mantimentos para uma vila escondida nas montanhas e eu o indiquei para o trabalho. Tome aqui essas duas peças de ferro para caso precise contratar alguém. Você deve partir em dois dias, mas antes precisa passar na casa do burgomestre para pegar o carregamento que deve levar.
O anão parte imediatamente para a Hospedaria do Ultimo Lar em busca de pessoas que possam acompanhá-lo em sua viagem.
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Na praça de Solace o palanque do dia anterior está sendo desmontado por Talis e seus ajudantes, eles realizam o trabalho cuidadosamente para poder reaproveitar a madeira na construção do pequeno santuário de Mishakal.
Um elfo Silvanesti, recém chegado cidade de Haven se aproxima do marceneiro.
- Bom dia. Procuro por um guia para minha viagem. Poderia me ajudar?
- Bom dia senhor elfo! Meu amigo é um grande guerreiro e já viajou muito pela região. Posso levá-lo até ele se quiser! – respondeu Talis.
O elfo fez que sim com a cabeça. Imediatamente Talis se levantou e disse para seus assistentes - Eu vou ajudar esse bom elfo e já volto! Continuem o trabalho!
Em seguida ele e o elfo foram em direção a Hospedagem do Ultimo Lar.
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Turin terminou suas orações matinais e partiu em direção ao Lago de Cristal, ao encontro do elfo ranger. Facilmente ele avistou a cabana e se aproximou.
- Olá! Ranger você está ai? – Ele gritou.
O elfo saiu da casa depois de alguns instantes.
- Eu sou Turin, clérigo de Mishakal. Falei com você ontem à noite. Preciso que me acompanhe em minha missão de espalhar as boas novas de minha deusa! Você me acompanha?
- E o que ganharei com isso?
O jovem permaneceu em silencio por um instante, refletindo sobre a pergunta do elfo.
- Bem, não tenho dinheiro para lhe pagar.
- Então volte quando tiver uma proposta melhor.
O elfo se virou e voltou para dentro da casa.
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Abli comia suas batatas apimentadas quando seu amigo Talis entrou na hospedaria seguido de um estranho elfo de cabelos brancos. O elfo Silvanesti se sentiu um pouco confuso ao ver que o humano se dirigia para a mesa de um anão, mas o acompanhou calado.
- Abli! Este nobre elfo precisa de um guerreiro para acompanhá-lo em suas viagens – disse o marceneiro.
Abli se levantou e se apresentou, com um gesto fez sinal para que o elfo se sentasse e este assim o fez.
- Meu nome é Kardanon, acabo de chegar de Haven e preciso de alguém que conheça a região para me acompanhar – disse o elfo formalmente.
- Eu sou Abli. Estou prestes a fazer uma viagem, parto em dois dias. Levarei mantimentos para uma vila que fica nas montanhas, preciso de companhia para a viagem. Se tiver interesse em me acompanhar.
O elfo pensou por um instante e disse – Me fale mais dessa viagem.
- Na verdade eu não sei muito alem disso, meu mestre que fez o acordo para o trabalho. Mas posso ir à casa do Burgomestre saber de mais detalhes.
- Ficarei aqui esperando seu regresso então – respondeu o elfo pacientemente.
O anão terminou sua refeição e saiu em direção a casa do Burgomestre.
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O Burgomestre Rufinus saiu sedo de casa, para preparar os mantimentos e armas que seriam levados na viagem ate Tatallon. Deixando seu filho como responsável em sua ausência.
Alguém batia na porta e o jovem encarregado foi atender. Turin entrou imediatamente, com um ar de preocupado, perguntando sobre o Burgomestre.
- Meu pai acaba de sair, mas pode esperá-lo aqui se quiser.
O clérigo fez um aceno com a cabeça e se sentou em uma cadeira no canto da sala.
Minutos se passaram e novamente alguém bate à porta, o filho do burgomestre mais uma vez foi atender e desta vez entrou Abli e se sentou.
- Posso ajudá-lo?
- Preciso de mais informações sobre minha viagem!
O clérigo arregalou os olhos quando ouviu a palavra viagem, prestando total atenção no anão.
- Bem. Meu pai não está. Mas posso lhe adiantar alguma coisa mestre Neidar.
O anão retirou uma tira de couro da cintura e pincel para tomar nota do que o jovem dizia.
- O senhor deve levar quatro sacos para Tantallon. Um deles contém frutas, o outro pães, um de adagas e outro com espadas curtas. A vila se mantém distante e isolada por anos e sua localização é nos Picos do Orador. Nela existe um antigo castelo e pequenas fazendas. Você deve procurar por Tallanis Loris, meu tio e dizer que a guerra acabou e depois trazer informações deles para nós.
O anão demorou um pouco para terminar suas anotações e por fim disse – Bem, acho que isso é tudo que preciso saber. Amanhã venho pegar os sacos e partir.
Ele se levantou e saiu da casa. Em seguida o jovem clérigo se levantou e partiu atrás dele.
- Espere! Posso ir com você!
O anão parou e olhou para o jovem
- Posso ir com você?
- Bem. Você acha que pode levar um saco de frutas? – disse o anão.
- Sim. Claro!
- Então está bem – disse o anão, virando-se na direção da hospedagem. Pensando que agora já conseguira dois carregadores, o que seria suficiente pois ele poderia carregar dois sacos sozinho.
- Espere! Precisamos de um guia até as montanhas – disse o clérigo.
- Não conheço nenhum guia – respondeu o anão.
- Eu conheço um elfo ranger que pode nos acompanhar!
- Então traga-o até a Hospedagem do Último Lar!
O jovem clérigo partiu acelerado em direção à cabana do ranger.
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Mais tarde todos se reuniram na Hospedagem do Último Lar. Após as apresentações o anão retirou a tira de couro com suas anotações e repassou todos os detalhes da viagem.
Todos ouviram atentamente e um silêncio se seguiu por uns instantes.
O Silvanesti achou interessante acompanhar o anão na viagem, pois poderia descobrir algo importante nessa cidade, ele olhou para o Qualinesti e disse em elfo – Pretende nos acompanhar?
- Não sei. Sei que não farei o serviço por apenas duas peças de ferro.
- Eu não irei pelo dinheiro, estou a procura de algo – respondeu Kardanon.
- E o que seria?
- Algo que possa unir os povos élficos para reconquistar tudo que é nosso por direito. Nossa pátria e nossa dignidade. Não sei se sabe, mas os elfos estão vagando nas Planícies da Poeira sem união e liderança. Eu e meu mestre decidimos agir e estamos a procura da única coisa que achamos poder guiar nossa luta nesse momento.
- E o que seria?
- Um dragão! Na história de nosso povo os dragões sempre acabaram nos unindo e é isso que pretendo fazer. Mas infelizmente os dragões desapareceram.
- Só que os dragões já desapareceram em outros momentos, eles devem estar nas lendárias Ilhas dos Dragões – disse Turin em elfo, para a surpresa de Kardanon e Haldir.
- Talvez os dragões tenham desaparecido para sempre dessa vez, jovem humano. Não sei se você sabe, mas os dragões foram criados por Paladine e a deusa Dragoa.
- Sim eu sei disso. Mas o que tem a ver?
- Bem, agora as constelações dos dois deixaram os céus os dragões deixaram a terra, sem vestígio – retrucou Kardanon com um ar de ira com a petulância de Turin em interromper uma conversa entre elfos.
Os três se mantiveram em silêncio por um instante. Abli tomava uma caneca de cerveja e fingia entender tudo o que estava sendo conversado, afinal ninguém sabia que ele não compreendia a língua dos elfos.
Finalmente Haldir se levantou para se retirar.
- Vira conosco? – Perguntou o anão na língua comum.
- E porque eu iria? Aparentemente não existe nada do meu interesse para onde vão.
- Seria de grande valia nos acompanhar, pois de todos nós é o único que conhece bem a região – Disse Abli com ar de respeito.
O silêncio se seguiu por uns instantes, mas as palavras do anão pareceram atingir em cheio ao Qualinesti.
- Me encontrem no Lago de Cristal amanhã pela manhã – disse o ranger ao sair da hospedaria.
O Silvanesti continuou a conversar com o jovem clérigo na língua élfica, enquanto isso Abli terminava sua cerveja.
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